Filme: O lado negro do chocolate (2010)

13 de abril de 2012

O filme é sobre chocolate, mas não se anime muito: o assunto não é a fabricação da guloseima e, sim, exploração infantil.

Eu venho estudando bastante sobre a origem e a história do chocolate, pois foi o tema que escolhi para meu trabalho de conclusão de curso. E como Cinema e Gastronomia são, para mim, a combinação perfeita, tratei de procurar filmes sobre chocolate. Achei vários, como o clássico "Como água para chocolate", o sensual "Chocolate", e até mesmo o bonitinho "Les émotifs anonymes" entrou para a lista. Porém, o que me chamou mais a atenção foi o documentário "The dark side of chocolate" (O lado negro do chocolate).

E chama mesmo a atenção quando você descobre a realidade de muitas crianças em vários países africanos, e a indignação só aumenta quando você vê a falta de compaixão de muitas pessoas que lidam diariamente com essa problemática: crianças, tratadas como mercadorias.

O documentário é de 2010 e foi dirigido pelo premiado jornalista e diretor dinamarquês, Miki Mistrati. Ele decidiu investigar os boatos de que o chocolate que consumimos é produzido com o uso de trabalho infantil e tráfico de crianças. Sua busca o levou até a África Ocidental (Mali e Costa do Marfim), e com a ajuda de uma câmera oculta revelou muitas verdades.

A Costa do Marfim é o maior produtor de cacau no mundo, responsável por quase 50% da produção mundial. Em 2001, foi revelado o abuso e o tráfico infantil existente nas plantações de cacau que ocorriam nesse país, gerando uma má publicidade para os produtores. O senador Tom Harkin e o deputado Eliot Engel, membros do Congresso americano, criaram um projeto de lei agrícola propondo "um sistema federal para certificar produtos de chocolate como livres de abusos como a escravidão". O projeto foi aprovado pela Câmara dos Deputados, porém foi um desastre para empresas como a Cargill, Hershey, Nestlé, Barry Callebaut, Saf-Cacao; muitos dos fabricantes acabaram não se qualificando. A indústria reagiu e entrou em acordo um protocolo voluntário, onde fabricantes comprometiam-se a acabar com o trabalho e o tráfico infantil em plantações de cacau, com o prazo até 2005.

A indústria do cacau falhou, e o prazo passou para o ano de 2008. Em 2008, no entanto, os termos do protocolo ainda não tinham sido praticados e o prazo acabou se estendendo para 2010. Quase uma década se passou e fica a pergunta: será que os milhões de doláres gastos para erradicar o problema fizeram algum efeito? Será que mudou alguma coisa?

O documentário é simples, dura uns 45 minutos, com um final que deixa um gosto meio amargo na boca. Particularmente, me deixou triste, pois sou apaixonada pelo chocolate, por sua história e sua magia. Vale a pena conferir (e divulgar o trabalho do Mistrati), seja você um chocólatra assumido ou um simples apreciador dessa guloseima:


O difícil mesmo é parar de consumir chocolate, como forma de protesto ou algo do gênero. O alerta aqui é para termos conhecimento daquilo que consumimos, de onde e como é originado. Infelizmente, a exploração e o abuso infantil são praticados não só em países africanos, não só na indústria do cacau. Acredito que no nosso país também ocorra esse tipo de abuso e exploração, principalmente na área de produção agrícola; o que não temos, ainda, é a divulgação de trabalhos de jornalistas como Mistrati, que correm atrás (literalmente) e lutam para que os direitos humanos sejam praticados igualmente.
Para mais informações sobre como você pode ajudar, acesse: SlaveFreeChocolate.org
Por Rebeca Patrício

6 comentários

  1. Poxa vida, não fico decepcionada assim desde que descobri que [spoiler alert] Papai Noel não existe [end of spoiler]

    =/

    Não entendo como ainda dão prazo pra se livrarem do trabalho escravo... isso deveria ser uma atitude sumária a partir do momento em que foi descoberto!

    Muito boa sua resenha Beca :)

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    1. Pois é Ray, assim como você, eu também fiquei muito decepcionada... Mas existe tanta falsa verdade no mundo, tanta máscara que a gente nem sabe por onde corrigir, por onde melhorar.
      A questão do trabalho escravo, principalmente na região da Costa do Marfim, já é tão cultural, tão banal, que os próprios escravizados, e as pessoas que participam do contrabando dessas crianças, não reagem mais.

      [spoiler]
      O mototaxista mesmo, fazendo o depoimento dele... ele riu, falou com a maior naturalidade. [/spoiler]

      E obrigada pelo comentário! Essa tag de filmes será fixa, e toda sexta-feira vou estar postando dicas de filme (quem sabe gastronômicos também) pra vocês. (:

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    2. Eu quero muuuito dicas de filmes gastronomicos que despertem vontade de cozinhar e aprender, Rebeca! =* Adorei a resenha. O assunto realmente 'e muito triste ainda mais se vc 'e uma chocolatra como eu. Concordo com Ray, nao deveria haver um prazo, mas o q vc falou est'a certissimo: esse tipo de tratamento 'e cultural e mesmo que as empresas parem de se beneficiar de trabalho escravo, ele vai continuar existindo enquanto a cabeca dos locais nao mudar. Mas 'e fundamental que empresas tao importantes nao sejam coniventes com esse tipo de crueldade pois no mundo onde o produto deles 'e CONSUMIDO isso nao 'e socialmente aceito. Quais as marcas de chocolate em que vc confia, Rebeca? Faz um post!!! Obs.: tou passada e me prontifico a comer so chocolate das marcas "legalizadas"!

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    3. Luciana, até agora todas as marcas que eu listei eram as que eu conhecia e confiava... Desde a Nestlé até a Callebaut (que produz e vende chocolates caríssimos, importados aqui pro BR, e o que usamos na confeitaria)...
      Eu pretendo ir pra o Salon du Chocolat, que esse ano será em Salvador! Posso até fazer um post sobre o evento, e pesquisar sobre chocolates "orgânicos".
      Mas acredito que aqui no BR tenha fabricantes que tenham essa proposta "anti trabalho escravo". Assim penso... ;T

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    4. Faça um post sobre o evento, por favor! E recheado de fotos (se puder tirar fotos lá e etc...)!

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    5. Sim sim! Nem que sejam fotos clandestinas! haha :D

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