Olhos Azuis (1996)

14 de agosto de 2012

Em 5 de janeiro de 1968, um dia após o assassinato de Martin Luther King Jr., Jane Elliott decidiu realizar um exercício com sua turma de 3ª série do ensino fundamental. Residente na pequena cidade de Roceville, no estado de Iowa, Jane queria mostrar para os seus alunos como era o tratamento recebido por pessoas negras nos Estados Unidos da época.

O exercício consistiu em dividir a turma em dois grupos de acordo com a cor dos olhos: crianças de olhos azuis ou verdes em um primeiro grupo, e crianças de olhos castanhos em um segundo. A ideia para utilizar a cor dos olhos no lugar da cor da pele foi inspirada no livro Mila 18, de Leon Uris, sobre o Levante do Gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial.

No primeiro dia, o grupo de crianças com olhos azuis/verdes foi considerado "superior", recebendo tratamento preferencial da professora, como mais tempo no recreio, por exemplo. As crianças do segundo grupo, por sua vez, precisavam usar uma gola marrom no pescoço para serem melhor identificadas, também deviam sentar-se no fundo da sala de aula e estavam proibidas de beber água no mesmo bebedouro ou de brincar com as crianças do primeiro grupo.

Jane aponta que as mudanças no comportamento das crianças de ambos os grupo foram significativas. As crianças do primeiro grupo, consideradas "superiores", se tornaram arrogantes e mandonas em relação às crianças do segundo grupo. Elas também tiveram melhores desempenhos escolares em comparação, enquanto que as crianças de olhos castanhos se mostraram tímidas e subservientes.

No dia seguinte, os grupos foram invertidos e as crianças com olhos castanhos passaram a ser consideradas "superiores", mas sabendo o tormento que era ser do grupo "inferior", não provocaram tanto as crianças de olhos azuis/verdes. No final do exercício, as crianças se abraçaram emocionadas, e foram incentivadas a escrever cartas à Coretta Scott King, viúva de Marting Luther King Jr, e redações contando sobre essa experiência.

Jane acabou ficando famosa, muitos pais ficaram enraivecidos e não queriam que seus filhos passassem por uma experiência dessas. Até seus filhos passaram a sofrer bullying e o restaurante mantido por seus pais foi à falência. Jane deu entrevistas em programas como o The Tonight Show with Johnny Carson e o The Oprah Winfrey Show, passando a ser conhecida nacionalmente. Em meados dos anos 80, ela deixou de ser professora e passou a dar seminários e palestras em universidades e empresas pelos Estados Unidos, sendo uma das pioneiras no que ficou conhecido como diversity training.

Blue Eyed é um dos vários documentários sobre o assunto. Filmado em 1996, ele mostra o exercício sendo realizado com um grupo de adultos, e fala não só de preconceito contra negros, mas também sobre a discriminação sofrida por mulheres, homossexuais, pessoas com deficiências, e outros grupos minoritários.



Como era de se esperar, esse exercício recebeu (e ainda recebe) muitas críticas e muita gente não concordou com o método utilizado por Jane. Ela foi acusada de realizar lavagem cerebral e de humilhar os participantes, e o exercício foi criticado por ser psicologicamente e emocionalmente traumatizante e por não ter feito nenhuma adaptação às mudanças ocorridas ao longo dos mais de 40 anos que se passaram desde a primeira vez em que foi realizado. Outra crítica é de que presume que todas as pessoas brancas são preconceituosas, e nega que pessoas negras tenham feito injustiças contra esse primeiro grupo.

Apesar de todas essa críticas, que são melhor explicadas nesse texto aqui (em inglês), eu achei esse exercício fascinante e recomendo muito esse documentário!

Créditos: Newsreel.org

3 comentários

  1. Achei uma proposta legal a dela, só acho que com crianças pode acabar afetando o comportamento delas no futuro, é um bom exercício de se fazer com adultos que , teoricamente, têm mais consciência das coisas...

    PS: Eu bebi ou essa mulher lembra muito o Damian McGinty?

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  2. Achei o exercício fascinante também! Só acho que o método deveria ser invertido: prestigiando primeiro as crianças de olhos escuros, assim talvez as reações tivesse sido opostas ao que foram. De qualquer forma, não acho a crítica de que diz que todos os brancos fazem isso e todos os negros aquilo porque tenho certeza que não foram todos os de olhos claros que se comportaram como o grupo em que estavam inseridos. (Além de que, aqui no Brasil, existem loiros de olhos escuros e negros de olhos verdes, então isso tudo causa confusão quando as categorias olhos claros x escuros é trocada pela cor da pele.
    Adorei o post! Onde você viu o documentário? Alugou o DVD ou viu na TV a cabo?
    Beijo!

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    1. Eu achei esse experimento fascinante também, apesar de todas as críticas, e acho que ia ser confuso mesmo fazer algo assim no Brasil. Por exemplo, eu tenho descendência negra, mas sou branca feito uma macaxeira! Eu vi o documentário online mesmo, li em algum blog falando dele (já esqueci onde...) e segui o link pro youtube.

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