John Green e o seu discurso de formatura na Universidade de Butler

17 de maio de 2013

Semana passada, o nosso querido João Verde John Green fez um discurso de formatura para a turma de 2013 da Universidade de Butler, uma universidade localizada em Indianápolis, Indiana. Como a minha própria colação de grau foi na terça-feira passada, sinto como se ele também estivesse falando para mim. Esta é uma tradução feita por mim do texto que ele colocou no Tumblr, que você pode conferir em inglês aqui, um pouquinho diferente da versão do vídeo logo abaixo.


O discurso dele começa no minuto 3:05

O meu próprio orador, que não deverá ser nomeado, começou com uma piada ruim sobre como esses discursos possuem apenas duas variedades: ou são curtos ou são ruins. Isso fez com que eu aumentasse as minhas expectativas, mas então ele falou durante 26 minutos. Assim, eu vou dizer-lhes agora: serão 12 minutos contados, 11min 45s se vocês não rirem.

Parabéns a todos vocês que estão aqui hoje, e eu realmente quero dizer todos vocês - pais, familiares, amigos, professores, treinadores. Cada pessoa em Hinkle hoje contribuiu para tornar esse momento possível para a turma de 2013 - bem, exceto eu. Eu só fiz aparecer e vestir este robe.

Mas um parabéns especial para vocês graduandos. Antes de chegarmos à parte deste programa de "Conselhos de Vida que Vocês Logo Esquecerão", eu quero participar de uma antiga tradição de discursos de formatura americanos: roubando de outros discursos de graduação, neste caso um feito pelo apresentador de televisão infantil Fred Rogers. Pense, se quiser, em algumas das pessoas que ajudaram você a chegar aqui hoje, pessoas que amaram você e que sem seu carinho e generosidade talvez você não se encontrasse hoje aqui, graduando pela Universidade de Butler, ou assistindo alguém que você ama graduar, ou vendo seus estudantes graduarem. Pense por um minuto naqueles que amaram você até o dia de hoje. Eu cuido do tempo.

(1 minuto de silêncio)

Estas pessoas estão tão orgulhosas de você hoje.

Nós retornaremos à elas logo, mas primeiro eu preciso lhes dar uma péssima notícia: vocês todos irão morrer. Esta é uma outra antiga tradição de celebrações americanas, a "Chovendo no Desfile". Eu me lembro quando me casei, o padre passou a maior parte da homília me dizendo o quão desafiador e trabalhoso seria o casamento, e eu ficava pensando, "Bem, com certeza, mas não poderíamos falar sobre isso, sei lá, AMANHÃ?". Mas não, não podemos simplesmente esperar. Você irá morrer. Além disso, tudo o que você fizer e pensar e experimentar será lavado pelas areias do tempo, e o Sol explodirá e ninguém se lembrará de Cleópatra governando o Egito ou de Crick e Watson descobrindo a estrutura do DNA ou de Ptolomeu compreendendo as estrelas ou ainda daquele jogo improvavelmente incrível dos Gonzaga [Bulldogs].

Então, isso é lamentável.

Mas eu diria que é bom estar ciente da temporalidade quando você está pensando sobre o que você quer fazer da sua vida. Toda a ideia deste discurso de formatura é que eu deveria oferecer a vocês alguns pensamentos sobre como você talvez viva uma vida boa lá fora, no chamado "Mundo Real", que, por sinal, eu garanto não é mais ou menos real do que aquele em que vocês já se encontram. Mas eu não posso dar nenhum conselho sobre como viver uma vida boa sem e até nós estabelecermos o que constitui uma vida boa. Claro, isto é muito do que vocês andaram fazendo durante os últimos quatro anos, e eu não vou chegar aqui no final com revelações interessantes. Eu gostaria apenas de apontar que o pressuposto padrão é de que o sentido da vida humana é ser o mais sucessido possível, adquirir muita fama ou glória ou dinheiro, como definido por métricas quantificáveis: pelo número de seguidores no Twitter, ou de amigos no Facebook, ou de dólares na sua 401(k).

Essa é a jornada do herói, certo? O herói começa sem dinheiro algum e termina com um monte, ou começa como um patinho feio e se transforma em um belo cisne, ou começa como uma garota desajeitada e se torna uma mãe vampira, ou cresce como um orfão vivendo debaixo da escada e então se torna o bruxo que salva o mundo. Nós somos ensinados que a jornada de um herói é a jornada da fraqueza à força. Mas eu estou aqui hoje para lhes dizer que estas histórias estão erradas. A verdadeira jornada do herói é a jornada da força à fraqueza.

E aqui está a boa notícia aninhada à má: muitos de vocês, a maioria de vocês, estão prestes a fazer esta jornada. Vocês deixarão de ser os estudantes mais bem informados e mais engajados em uma das melhores universidades que existe para ser uma pessoa que trás café para outras pessoas, ou um garçom num Steak n Shake, como uma vez eu fui. Quer você seja um jogador de basquete ou um farmacêutico ou um designer de software, você está prestes a ser um novato. As perguntas que seus pais vêm fazendo - o que exatamente se pode FAZER com uma graduação em Antropologia? - se tornarão problemas de relevância súbita e profunda. Os seus empréstimos estudantis vencerão e você precisará de uma resposta muito boa para o motivo exato de você ter ido para a faculdade, cuja resposta você demorará a chegar enquanto você se senta em seu trabalho, desde que você seja sortudo o suficiente para conseguir um emprego, e sofre a indignidade de pessoas o chamarem pelo nome errado ou, se você for forçado a usar uma etiqueta com seu nome, ter pessoas chamando você pelo nome certo vezes demais.

Esta é a verdadeira missão do herói: da força à fraqueza. E porque você foi para a faculdade, você se tornará mais vivo à experiência, mais capaz de contextualizá-la e até mesmo de encontrar as alegrias e maravilhas escondidas no meio da labuta desumanizante. Por exemplo, quando eu era um operador de Data Entry profissional, muitas vezes me lembrava da brilhante carta de demissão de William Faulkner do United States Postal Service, que é assim:

Enquanto eu viver sob o sistema capitalista, eu espero ter minha vida influenciada pelas demandas de pessoas endinheiradas. Mas eu serei amaldiçoado se eu me propor a obedecer cegamente* cada canalha itinerante que tem dois centavos para investir em um selo postal. Este, senhor, é o meu pedido de demissão. William Faulkner.

Ter lido esta carta em uma biografia de Faulkner na faculdade não tinha nada a ver com o meu trabalho de escrever números em um banco de dados, mas ainda assim foi profundamente útil para mim. A educação fornece contexto e conforto e acesso, não importa a relação entre o seu campo de estudo e a sua vida pós-faculdade.

Mas, ainda assim, você provavelmente será um ninguém por um tempo. Você fará aquela jornada da força à fraqueza, e mesmo que não seja uma viagem fácil, será heróica. Pois, aprendendo a ser um ninguém, você aprenderá a não ser um idiota. E, para o resto da sua vida, se você for capaz de se lembrar da sua jornada de herói de recém graduado à subalterno, você será menos de um idiota. Você dará boas gorjetas. Você sentirá empatia. Você será um mentor, e um mentor generoso. Em suma, você se tornará aquelas pessoas que você imaginou em silêncio alguns minutos atrás.

Deixe-me apresentar-lhe a verdadeira definição de uma vida boa. Você quer ser o tipo de pessoa que outras pessoas - pessoas que talvez não tenham nem nascido ainda - pensarão em seus momentos de silêncio alguns anos a partir de agora nos seus próprios discursos de formatura. Eu vou arriscar um palpite de que relativamente poucos de nós fechamos nossos olhos e pensamos em todo o trabalho e amor que Selena Gomez ou Justin Bieber tiveram em tornar este momento possível para nós. Nós podemos ser ensinados que as pessoas para admirar e emular são atores e músicos e heróis do esporte e pessoas profissionalmente famosas, mas quando nós olhamos para as pessoas que nos ajudaram, as pessoas que realmente mudaram as nossas vidas, relativamente poucas delas são celebradas publicamente. Nós não pensamos no dinheiro que elas tiveram, mas na sua generosidade. Nós não pensamos em quão bonitas ou poderosas elas eram, mas em como elas estavam dispostas a se sacrificar por nós - tão dispostas, às vezes, que nós podemos até nem mesmo ter percebido que elas estavam fazendo sacrifícios.

Então, com isso em mente, eu gostaria de compartilhar algumas coisas que eu acredito ser bons conselhos sobre a vida adulta ou algo assim:

Em primeiro lugar, não se preocupe demais com o seu gramado. Você logo descobrirá, se ainda não descobriu, que quase todo adulto americano dedica tempo e dinheiro tremendos para manter uma espécie de planta invasiva chamada relvado que nós não consumimos. Eu encorajo-lhe a escolher obsessões melhores.

Além disso, você talvez tenha ouvido falar que é melhor queimar do que se apagar aos poucos. Isto é ridículo. É muito melhor se apagar aos poucos. Sempre. Apague-se. Aos. Poucos.

Continue lendo. Especificamente, leia os meus livros, de preferência em capa dura. Mas também continue a ler outros livros. Você provavelmente já descobriu que a educação não é realmente sobre notas ou sobre conseguir um emprego; é, principalmente, sobre tornar-se um observador mais atento e engajado do Universo. Se isso acabar com o fim da faculdade, você estará desperdiçando a sua única e melhor oportunidade para a consciência.

Outra coisa, sobre a internet: as pessoas mais velhas, como eu, estão aterrorizadas com suas ignorâncias em relação a ela, o que você pode e deve usar para a sua vantagem dizendo coisas no seu emprego do tipo, "Você não tem um Tumblr? Oh, você realmente deveria ter um Tumblr. Eu posso configurar um para você".

Tente não se preocupar tanto sobre o que você fará com a sua vida. Você já está fazendo o que você fará com a sua vida, e julgando pela sua gownedness [nota: o fato de estarem vestindo gowns, no caso, becas], você está indo muito bem.

Nesse tópico, existem muitos outros empregos que você nunca nem ouviu falar. Seu emprego dos sonhos pode nem existir ainda. Se você tivesse dito ao meu Eu Na Faculdade que eu me tornaria um Youtuber profissional, eu diria algo como, "Isto não é nem uma palavra, e nunca deveria ser".

E, por último, seja vigilante na luta em direção a empatia. Alguns anos atrás, após a minha graduação na faculdade, eu estava morando em um apartamento em Chicago com quatro amigos, um dos quais era um cara do Kuwait chamado Hassan, e quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, Hassan perdeu contato com a sua família, que vivia na fronteira, por seis semanas. Ele respondeu a esse estresse assistindo toda a cobertura jornalistica da guerra 24 horas por dia. Então, a única maneira de sair com Hassan era sentando-se ao seu lado no sofá, e daí um dia nós estávamos assistindo o noticiário e o âncora disse algo como, "Estamos recebendo novas imagens da cidade de Bagdá", e a câmera filmou uma casa que tinha um buraco enorme em uma parede coberta por um pedaço de madeira. Na madeira, tinha uma pichação em árabe rabiscada em tinta spray preta, e enquanto o âncora do jornal falava sobre a raiva na rua árabe ou algo assim, Hassan começou a rir pela primeira vez em várias semanas.

"O que é tão engraçado?", eu perguntei.

"A pichação", ele disse.

"O que é tão engraçado sobre ela?"

"A pichação diz: 'Feliz Aniversário, Senhor, Apesar das Circunstâncias'".

Pelo resto da sua vida, você terá uma escolha sobre como ler uma pichação em uma língua que você não conhece, e você terá uma escolha sobre como ler as ações e intonações das pessoas que você conhecer. Eu gostaria de incentivá-lo o máximo possível a considerar a possibilidade "Feliz Aniversário Senhor Apesar das Circunstâncias", a possibilidade de que as vidas e experiências dos outros são tão complexas e imprevisíveis quanto as suas próprias, que outras pessoas - sejam familiares ou estranhos, perto ou distantes - não são simplesmente uma coisa ou outra - não são simplesmente boas ou más ou sábios ou ignorantes - mas que eles, como você, contêm multidões, pegando emprestado uma frase do grande Walt Whitman.

Isso é difícil de se fazer - é difícil se lembrar que pessoas com vidas diferentes e distantes da sua própria vida até mesmo celebram aniversários, muito menos com presentes pichados em madeira. Você estará sempre preso ao seu próprio corpo, com sua consciência, vendo através do mundo por meio de seus próprios olhos, mas o dom e o desafio da sua educação é ver os outros como eles vêem a si mesmos, é lidar com esse mundo cruel e louco e bonito em toda a sua complexidade desconcertante. Nós não deixamos-lhe o caminho mais fácil, eu sei, mas eu tenho toda a confiança em você, e eu espero que você tenha uma feliz graduação, apesar das circunstâncias.

*Acho que é assim que se traduz a expressão "at someone's beck and call", mas não tenho muita certeza.
** Obrigada, Julia Tabosa, pela ajuda na tradução!

7 comentários

  1. Que discurso lindo! Não é só porque é do John, mas achei realmente lindo! Como eu gosto desse cara, e das palavras dele! God, tenho que aprender inglÊs hahahah'

    Acho que o John tem mesmo uma "cisma" em falar sempre em morte e não seremos lembrados, tipo o Gus e a Hazel no livro.

    Não conhecia seu blog e vou seguir aqui *-*

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    1. Olá, Marina, seja bem vinda! Huahuahau
      O John sempre fala de morte mesmo, mas acho que é um tema que ele persegue sem nem mesmo perceber e depois que aprofunda mais (estou lendo um capítulo falando exatamente sobre isso do livro "On Writing", do Stephen King...). Que bom que você gostou, assim que eu li o texto lá no Tumblr dele, decidi que *precisava* traduzir urgentemente e mostrar para algumas pessoas. Beijos!

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    2. Também acho que ele nem percebe, mas eu gosto desse "detalhe" no John, mesmo repetindo um tema, ele consegue ser awesome :D

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  2. Muito legal! Ainda estou refletindo sobre... :)
    Taís

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  3. Eu adorei. Mesmo. O John Green é um escritor incrível e ele tem razão em relação ao discurso.
    Estudar é difícil e sempre será. Aliás, o que é fácil? Entrei na psicologia, tranquei, quis ir pra arquitetura, pra relações internacionais e acabei voltando pra psicologia. Pensei em letras. Voltei pra psicologia. Hoje penso em largar tudo e fazer um tecnólogo mesmo... e ainda não é o que eu quero definitivamente, sabe? É isso, é o "apesar das circunstâncias" que eu estou sempre lá, tentando e tentando.
    Enfim, ótimo texto e um post delicioso!
    Beijão

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    1. Olá Vivian! Acredita que eu já reli esse discurso umas 20 vezes? Ele me entende, e eu me sinto tão melhor depois de lê-lo! E a minha parte favorita é esse "apesar das circunsâncias", que me motiva a procurar quais são as minhas verdadeiras paixões e procurar alcanjar os meus sonhos! Obrigada pelo comentário. :)

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  4. Muito interessante o texto!!!!

    Parabéns pelo blog e principalmente pela paciência em traduzir.

    Vou seguir e indicar a partir de hoje!

    Abraço!

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